Teçume da Amazônia: o que uma cesta de cauaçu carrega

Teçume da Amazônia: o que uma cesta de cauaçu carrega

Há peças que compramos pelo que elas são. E há peças que levamos pelo que elas carregam.

O vaso da foto tem cerca de 40 centímetros de altura e uma cintura marcada no meio do corpo, como se tivesse saído de um torno. Não saiu. Cada tira de fibra foi cruzada à mão, uma a uma, até o desenho em zigue-zague vermelho aparecer no trançado. Quem fez foi uma artesã da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, no Amazonas.

A fibra vem da mata

O material é o cauaçu, uma fibra amazônica parecida com o arumã, mais conhecido de quem acompanha cestaria indígena. Antes de virar peça, ela passa por manejo, coleta e beneficiamento, um conhecimento que se aprende observando e repetindo, não em manual.

A cor também vem da floresta

Nada de pigmento industrial. O vermelho vivo é do crajiru. O amarelo intenso vem do açafrão. O urucum entra na mesma paleta. São plantas da flora nativa, colhidas ali mesmo, e é por isso que duas peças nunca saem exatamente iguais: a cor responde à planta, à safra e à mão de quem tingiu.

Quem tece

A Associação Teçume da Amazônia foi fundada em 2000, no setor Coraci, como um coletivo de mulheres apoiado pelo Programa de Artesanato do Instituto Mamirauá. Começou com 32 artesãs das comunidades Iracema, Matuzalém, Nova Canaã, Vila Nova do Coraci e São João do Ipec Açu.

Elas participam de oficinas, vivências e capacitações, aprendendo as técnicas de manejo e beneficiamento da fibra que sustentam a produção até hoje.

O que o trançado mudou por lá

O artesanato abriu uma fonte de renda que não existia. Com ela veio autonomia financeira, e com a autonomia veio a possibilidade de muitas mulheres contribuírem diretamente para o sustento da família.

O efeito não parou na casa de cada uma. Essa renda circula dentro das próprias comunidades, movimenta a economia local, fortalece a oferta de produtos e serviços e estimulou novas iniciativas de organização e empreendedorismo.

E mudou também o que é menos visível: o reconhecimento do trabalho feminino cresceu, e os jovens passaram a aprender e a valorizar um conhecimento que atravessa gerações.

A Teçume não está sozinha na Galeria

A cestaria amazônica tem muitos sotaques, e cada um deles resolve um problema diferente.

O urutu, feito pelos Baniwa, nasceu grande e funcional: guarda a massa de mandioca antes e depois de ser espremida no tipiti, e também farinha, beiju e roupas. Hoje ganhou outras funções dentro de casa, como cachepô para vasos e organizador de lápis, revistas e brinquedos. (Fontes: livro Arte Baniwa e Artesol.)

O samburá de tucum é feito com a fibra resistente do tucumã (Astrocaryum aculeatum) por artesãs do Alto Rio Negro. O processo é lento por natureza: coleta da fibra, preparo, tingimento natural e trançado manual. Uma única peça pode levar dias ou semanas.

Como cuidar de uma peça de fibra natural

Guarde longe da umidade constante e do sol direto, que resseca e desbota. Para limpar, um pano seco ou um pincel macio resolve. Se precisar de água, use pouca e deixe secar à sombra, nunca no sol nem em secadora.

Comprar aqui é comprar de quem faz

A Galeria Amazônica trabalha diretamente com os artesãos e as associações, sem intermediário no meio do caminho. Isso significa remuneração digna direta, procedência garantida e respeito ao tempo e à tradição de cada povo.

Quando uma cesta dessas sai daqui, ela leva junto o nome de quem a fez e devolve renda para a comunidade que a produziu.

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